Essa família reúne um grande número de espécies, típicas dos neotrópicos e apresenta-se particularmente diversificada nos Andes e na Patagônia. Sua característica marcante é a uniforme coloração da plumagem, marrom ou castanho-avermelhada ou com tons de ocre, na tonalidade de espécies que a família reúne. A forma da cauda, longa e “espinhenta” ou curta e arredondada e a forma do bico caracterizam cada gênero, reunindo-os em subfamílias próprias, consoante a combinação dessas características. Habitam desde ambientes abertos, como campos, cerrados e caatingas, a florestas densas, alcançando sua maior diversidade específica no Sul e Sudeste do Brasil. Indepedente do biótopo que ocupem, são fotófilos em sua grande maioria excetuando-se apenas as espécies do gênero Sclerurus, altamente fotófobas. Apresenta um número equivalente de espécies de hábitos terrícolas ao de outras, de hábitos essencialmente arborícolas, o que confere a esta família uma distribuição relativamente uniforme entre os vários estratos de uma floresta. Essa característica distingue os Furnariidae de outros suboscines neotropicais. De hábitos essencialmente insetívoros, cada gênero desenvolveu técnicas apropriadas de forrageamento, ocupando um determinado nicho. A nidificação dos Furnariidae permite ampla análise taxonômica dos gêneros e de suas relações filogenéticas, dada a grande variação de formas e estilos adotados na confecção de ninhos. Frequentemente, muitos desses ninhos são ocupados por outras aves de famílias diversas como,por exemplo, rolinhas, tuins, o vira-bosta ou até por pequenos roedores como ratos silvestres ou pequenos marsupiais, como as cuícas (Sick,1997). Algumas espécies são mais suceptíveis às mínimas alterações antrópicas em seu habitat natural enquanto outras se tornam até mais abundantes em matas perturbadas, como Automolus sp. ou como o joão-de-barro(Furnarius rufus) em áreas recentemente abertas para pastagens. Tal característica transforma essas espécies em bons indicadores ecológicos em recenseamentos da avifauna em matas residuais, nas regiões Sudeste e Sul e nas frentes de colonização antrópica na Amazônia.
Alguns gêneros da família:
Synallaxis: Gênero que reúne mais de uma dezena de espécies cujos hábitos, ninhos, vocalização e plumagem apresentam padrões similares. Os padrões de coloração do píleo, das asas e da cauda, bem como suas vocalizações, auxiliam na diagnose das espécies em campo. Constroem ninhos de gravetos em forma de “retorta” ou esféricos e costumam colocar peles de cobras sobre toda estrutura para afastar predadores. Esses ninhos são frequentemente ocupados por outros animais vertebrados e invertebrados. Frequentemente, muitas espécies são parasitadas pelo
saci(
Tapera naevia).
Synallaxis spixi (Synallaxis spixi)
Cranioleuca: Gênero de morfologia semelhante ao do gênero
Synallaxis. Suas espécies vivem em florestas e matas secas, mais frequentemente nas copas das árvores e arbustos e não nos emaranhados densos de vegetação baixa como os anteriores. Constroem no alto das árvores ninhos esféricos com entrada lateral, compostos a partir de musgos e epífitas “barba-de-velho”, além de gravetos secos, folhas e outros materiais vegetais. Esses ninhos apresentam um aspecto muito diverso dos nihos de gravetos construídos por pássaros do gênero
Synallaxis, dos quais estes também diferem pelo distinto padrão de vocalização, que usualmente é uma sequência de sons repetitivos.
Cranioleuca pallida (Cranioleuca pallida)
Philydor: Esse gênero congrega uma dezena de espécies com hábitos e comportamento similares. A maioria das espécies vive em florestas úmidas de todo o ´país e umas poucas em matas secas. Todas elas acompanham bandos mistos, muitas vezes ao lado de seus congêneres. Certas espécies podem se tornar “espécies nucleares”, mantendo a coesão desses bandos mistos por meio de sua constante vocalização. Invariavelmente, perseguem insetos e outros artrópodes em aglomerados de folhas secas ou vasculham ativamente sob a face inferior das folhas ou em epífitas e galhos recobertos por líquens, musgos ou tomados por lianas. Constroem ninhos em cavidades naturais ou em ninhos de
pica-pau abandonados. Também conseguem escavar ninhos em barrancos sujos e, adicionalmente, certas espécies podem ocupar galerias escavadas em cupinzeiros arborícolas.
Philydor atricapillus (Philydor atricapillus)
Automolus: Outro gênero com uma dezena de espécies de características comuns, tanto em relação ao colorido da plumagem quanto ao comportamento reprodutivo. Vivem em florestas de todo país nos estratos médio a alto, usualmente em grupos monoespecíficos. Esses grupos se congregam a bandos mistos, ao lado de pássaros insetivoros ou seguindo formigas-de-correição pelo sub-bosque. Nidificam em cavidades naturais e em túneis em barrancos, os quais são muito semelhantes ao gênero
Philydor.
Automolus leucophthalmus (Automolus leucophthalmus)
Xenops: Esse gênero reúne quatro espécies de pequeno porte e com o bico em forma de cinzel. Com esse bico, seus representantes escavam a madeira mole e talos verdes ou retiram presas dos interstícios da casca dos galhos ou do meio de massas compactas de musgo e liquens. Apesar de seus dotes, o bico não consegue perfurar madeira dura, como acontece no caso dos pica-paus. Esses pequenos pássaros florestais fazem malabarismos em todos os sentidos pelos galhos das árvores, ao sustentarem o peso do corpo unicamente com os pés, sem jamais apoiarem o seu peso na cauda, que é utilizada mais como contrapeso. Por sua plumagem e por seus hábitos de forrageamento, recordam os pica-paus-anões do gênero
Picumnus, por vezes presentes nos mesmos bandos mistos nos quais se encontram com frequência. Nidificam em ocos de
pica-pau e em cavidades naturais.
Xenops rutilans (Xenops rutilans)